Introdução às series

Por Adriana Francisco e Julia Cavalcante de Andrade

Este glossário apresenta uma visão geral das séries que fazem parte do corpo de trabalho de Tunga. Começando com as primeiras séries da década de 1970, a lista seguirá expandindo à medida que novas obras forem incorporadas ao catálogo raisonné. As séries estão organizadas por década de sua primeira aparição, em ordem alfabética dentro de cada período.

O texto a seguir foi escrito por Adriana Francisco e Julia Cavalcante de Andrade, pesquisadora do Instituto Tunga, em consulta com Fernando Sant’Anna, diretor da equipe técnica do Instituto e assistente de Tunga por mais de 15 anos.

Década de 1970

Cenas Brasileiras [1978-1984] é uma série de trabalhos bidimensionais que faz referência a Massacre (1933), uma série de desenhos do artista francês André Masson (1896-1987) que retrata o caos e a brutalidade da violência humana por meio de imagens de corpos entrelaçados e contorcidos, saturados de sangue e carne exposta. Na série de Tunga, a representação da violência por Masson é reinterpretada em um contexto brasileiro, incorporando imagens de vegetação tropical e da topografia local para explorar temas recorrentes em sua obra, como a compulsão erótica e a morte.

Sem título, [1978-1984]. Foto: Jaime Acioli

Objeto do Conhecimento Infantil [1974] é uma série que inclui diversos objetos exibidos na exposição individual Tunga: Ar do Corpo, realizada no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro em 1975. Tunga descreveu essas obras como “imagens da infância.” A série representa uma fase experimental do início da carreira do artista, destacando sua exploração do desejo, tanto velado quanto desvelado. A série é composta principalmente por obras tridimensionais, que não fazem parte do escopo deste catálogo raisonné. As únicas obras bidimensionais da série são 12 fotografias que retratam um objeto cilíndrico apresentado na exposição.

Objeto do Conhecimento Infantil, [1974]. Foto: Renato Laclette

O Perverso, Pensamentos, Máquinas, Charles Fourier e Paisagens do Desejo [1973-1974] formam um conjunto de cinco séries que incluem cerca de 50 aquarelas apresentadas na exposição individual de Tunga, Museu da Masturbação Infantil, no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro em 1974. Nesses desenhos abstratos, Tunga explorou temas eróticos, desafiando o que via como a repressão do desejo. Embora Tunga tenha atribuído cinco nomes distintos a essas primeiras séries de desenhos, as semelhanças e sobreposições desses trabalhos tornam impossível uma classificação precisa. Como resultado, esses títulos de séries não foram utilizados no catálogo raisonné.

Esquerda: [O Perverso], 1974. Foto: Jaime Acioli
Direita: Sem título, [1970-1975]. Foto: Jaime Acioli

São João Batista [1977-1989] é uma série vinculada à instalação São João Batista (1977), uma obra que Tunga recriou várias vezes, moldando, cortando e amassando borracha ou feltro, e então fixando o material a lâmpadas, ventiladores, vaporizadores ou espelhos, evocando os limites da visão e formas alternativas de perceber o invisível. As obras sobre papel dessa série foram criadas utilizando um dos objetos como carimbo, gerando formas abstratas e sinuosas. O título da série faz referência à cena bíblica em que a cabeça de São João Batista é trazida em uma bandeja de prata a Salomé, que, após dançar para o rei Herodes, exige a decapitação do profeta como recompensa.

Esquerda: São João Batista, 1977, vista da exposição. Foto: Pedro Oswaldo Cruz
Direita: Sem título, [1977-1980]. Foto: Jaime Acioli

Tarsila como Curvas Francesas [1979-1980] é uma série de trabalhos sobre papel que Tunga criou após morar em Paris entre 1976 e 1978. As aquarelas desta série combinam curvas com elementos sobrepostos e justapostos, organizados em diferentes campos cromáticos. Já os desenhos a grafite exploram a fusão de formas humanas, frequentemente sugerindo atos sexuais. O título faz referência não só ao tempo em que o artista esteve na França, mas também presta homenagem à pintora brasileira Tarsila do Amaral (1886-1973), que também viveu na capital francesa no começo do século XX.

Esquerda: Sem título, [1979-1980]. Foto: Jaime Acioli
Direita: Sem título, [1979-1980]. Foto: Jaime Acioli

Vê-nus [1976-1979] é uma série relacionada à primeira instalação em grande escala de Tunga, Vê-nus (1976-1978), que consiste em uma faixa serrilhada de borracha cercada por correntes, fios, varas, prendedores de metal e luz incandescente. As obras sobre papel da série geralmente retratam formas oblongas e serrilhadas em preto, feitas com carvão. O título Vê-nus faz um trocadilho com a combinação de “vê” e “nus”, evocando tanto a imagem da deusa Vênus quanto o ato de “ver o nu”.

Esquerda: Vê-nus, 1976, vista da exposição. Foto: Douglas Baz
Direita: Sem título, [1976-1978]. Foto: Jaime Acioli

Década de 1980

Bordas [1983–1987] é uma série composta por obras têxteis e trabalhos sobre papel, em que duas figuras aparecem abraçadas, com os braços erguidos enquanto seguram juntas um tacape, e as pernas marcadas por traços finos que evocam pelos. As obras têxteis são sedas bordadas, exibidas na parede e fixadas com ímãs em forma de pequenos lagartos. A série está ligada ao texto ficcional de Tunga intitulado Xifópagas Capilares Entre Nós, publicado originalmente na Revista da Prática Freudiana em 1985. Leia o texto completo aqui.

Esquerda: Bordas, 1983. Foto: Jaime Acioli
Direita: Sem título, [1985], capa da revista Cadernos Rioarte, janeiro de 1985. Foto: Jaime Acioli

Eixo Exógeno [1986–2000] é uma série ligada às esculturas de mesmo nome, cada uma feita a partir de uma combinação singular de madeira brasileira e liga metálica. À primeira vista, essas esculturas lembram cálices apoiados sobre um totem de madeira. Mas, num exame mais atento, revelam dois perfis combinados da mesma mulher, formando um único objeto ou forma. Como explica Tunga: “o perfil frontal de cada nudez foi feito. O desenho deste perfil foi a régua no torno onde o cerne de árvores se convertem em colunas, ‘cariátides virtuais’. O intervalo equivalente ao rosto foi torneado em metal. Taças gestálticas em 3D”. A série inclui ainda trabalhos sobre papel — na maioria, desenhos do mesmo perfil duplicado — feitos com pastel, grafite, carvão e outros materiais.

Esquerda: Eixo Exógeno, 1986, vista do estúdio, Rio de Janeiro, Brasil. Fotógrafo desconhecido
Centro: Sem título, [1996]. Foto: Jaime Acioli
Direita: Sem título, [1986]. Foto: Jaime Acioli

Escalpe [1981–2007] é uma série que inclui versões tridimensionais e bidimensionais de Troféu (1984), escultura composta por uma massa de fios de cobre disposta no chão, que remete a mechas de cabelo — o que Tunga chamava de cabeleiras. Os fios brilhantes de cobre são reunidos no centro e presos por um objeto longo e fino de latão, que lembra um pente. Os trabalhos sobre papel apresentam o mesmo motivo, feitos com grafite ou caneta hidrográfica. Essa imagem do cabelo e do pente aparece frequentemente combinada à do tacape — um tipo de clava na língua tupi —, elemento recorrente na obra do artista. A série está ligada ao texto ficcional de Tunga intitulado Xifópagas Capilares Entre Nós, publicado originalmente na Revista da Prática Freudiana em 1985. Leia o texto completo aqui.

Tunga usava tanto escalpe quanto escalpo na grafia do título.

Esquerda: Troféu, 198, vista da exposição, Museo de Arte Contemporáneo de Monterrey (MARCO), México, 2001. Foto: Cordelia Fourneau de Mello Mourão
Direita: Sem título, [1981-2007]. Foto: Jaime Acioli

Gravitação Magnética [1987] é uma série ligada à instalação homônima exibida na 19ª Bienal de São Paulo, em 1987. Tunga descrevia o projeto como baseado na ideia de um pêndulo. Vista do térreo do pavilhão da Bienal, a instalação de grande escala aparecia como uma escultura; já do terceiro andar, olhando para baixo, lembrava o desenho de uma figura humana enredada em seus próprios cabelos. Os trabalhos sobre papel da série apresentam imagem semelhante: uma forma sinuosa, serpenteante, com um traço preto espesso que envolve ou espelha os contornos de uma figura humana em posição reclinada ou fetal.

Esquerda: Gravitação Magnética, 1987, vista da exposição, 19ª Bienal Internacional de São Paulo, Brasil, 1987. Foto: Romulo Fialdini
Direita acima: Sem título, [1987]. Foto: Renato Parada
Direita abaixo: Sem título, [1987]. Foto: Jaime Acioli

Lábios [1989-1994] é uma série ligada a um conjunto de esculturas homônimas, compostas por garrafas e taças feitos de terracota e posteriormente fundidos em bronze. As protuberâncias que surgem do material assumem formas que Tunga chamava de “lábios”, os quais são pintados à mão com maquiagem em tons de pele e vermelho. Segundo Tunga, o título da série se refere a uma parte do corpo que funciona como uma fronteira — uma dobra que vira o corpo do avesso. Os trabalhos sobre papel dessa série exploram formas semelhantes, utilizando lápis e caneta hidrográfica.

Esquerda: Lábios, 1989. Fotógrafo desconhecido
Direita: Sem título, [1989-1994]. Foto: Jaime Acioli

Les Bijoux de Madame de Sade [1983-2011] é uma série ligada à escultura de mesmo nome, exibida pela primeira vez no Gabinete Raquel Arnaud Babenco, em São Paulo, em 1983. Os trabalhos sobre papel apresentam desenhos de ossos de diferentes tamanhos torcidos em formas circulares que lembram anéis. A série também se conecta ao tema recorrente do toro — uma forma criada pela rotação de um círculo ao redor de um eixo —, vista em outras obras, como a instalação ÃO 1981) e a série Toro [1980-2009].

Para Tunga, a escolha do título para as obras que apresentam esse motivo era fluida; algumas eram chamadas de Les Bijoux de Madame de Sade, outras de Torus.

Esquerda: Les Bijoux de Madame de Sade, 1983. Foto: Renato Parada
Direita: Sem título, [1983-2011]. Foto: Jaime Acioli

Lezart [1989-2013] é uma série ligada à instalação homônima exibida pela primeira vez na Whitechapel Gallery em Londres, em 1989. Esta obra complexa e de grande escala, feita de cobre, ferro e ímãs, apresenta chapas metálicas conectadas a uma massa de fios de cobre que lembram mechas de cabelo. Os ímãs frequentemente têm o formato de pequenos lagartos de duas cabeças ou duas caudas, um motivo recorrente na obra do artista. A série está ligada ao texto ficcional de Tunga intitulado Xifópagas Capilares Entre Nós, publicado originalmente na Revista da Prática Freudiana em 1985. Leia o texto completo aqui.

O título da série aparece em várias versões, incluindo Lesart em português, Lesartes em francês e Lizart em inglês, todas explorando a conexão entre as palavras “lagarto” e “arte”.

Esquerda: Lezart, 1989, vista da exposição, Whitechapel Gallery, Londres, Reino Unido, 1989. Foto: Gilles Hutchinson
Direita: Sem título, [1989-2013]. Foto: Jaime Acioli

Palíndromo Incesto [1988–1993] é uma série ligada à instalação homônima exibida pela primeira vez em Estocolmo, em 1991. A obra incorpora diversos materiais, incluindo ímãs, fios de cobre, limalhas de ferro e termômetros de vidro, que são organizados em um circuito palindrômico. Dentro dessa estrutura, compartimentos em forma de cesta contêm objetos como taças, garrafas, funis e dedais. Segundo Tunga, o título Palíndromo Incesto combina duas ideias: “palíndromo”, do grego palindromos, que significa “algo que volta sobre seus passos”, e “incesto”, do latim in-castus, que significa manchado ou corrompido.

Esquerda: Palíndromo Incesto, 1990, vista da exposição, Jeu de Paume, Paris, França, 2001. Foto: Claudia Terstappen
Direita: Prolegômenos ao Palíndromo Incesto, [1991]. Foto: Jaime Acioli

Pintura Sedativa [1984-1992] é uma série composta principalmente por pinturas em seda ou papel. As peças de seda são frequentemente suspensas pelos cantos superiores ou pelo centro, tanto na parede quanto sobre chapas de metal. Imagens recorrentes na obra de Tunga, como o fêmur, o tacape, a trança e cabeleiras, são exploradas nesta série e estão ligadas ao texto ficcional de Tunga intitulado Xifópagas Capilares Entre Nós, publicado originalmente na Revista da Prática Freudiana em 1985. Leia o texto completo aqui.

Esquerda: Pintura Sedativa, c. 1984, vista da exposição, Jeu de Paume, Paris, França, 2001. Fotógrafo desconhecido
Direita: Pintura Sedativa, [1984]. Foto: Jaime Acioli

TaCaPe [1986-2001] é uma série ligada a várias versões dos TaCaPes (1986), objetos feitos de ímãs agrupados, que fazem referência a ferramentas de caça, que, na visão do artista, funcionam como o contraponto masculino à trança feminina. As obras em papel dessa série retratam formas alongadas e fálicas, com o topo mais largo que o restante da figura, frequentemente percorridas por traços curtos e repetidos que evocam fios de cabelo. A imagem do tacape é muitas vezes associada à imagem da cabeleira e do pente da série Escalpe [1981-2007].

Tunga deliberadamente usava a grafia TCP em letras maiúsculas no título da série.

Esquerda: TaCaPe, 1983, vista da exposição Tunga: Conjunções Magnéticas, Instituto Itaú Cultural / Instituto Tomie Ohtake, São Paulo, Brasil, 2022. Foto: Renato Parada
Centro: Sem título, c. 1986. Foto: Jaime Acioli
Direita: Sem título, c. 1986. Foto: Jaime Acioli

TaCaPe Escalpe [1986-2008] é uma série ligada à instalação TaCaPe Escalpe, exibida pela primeira vez na exposição individual de Tunga no Jeu de Paume, em Paris, em 2001. A obra consiste em três elementos: um tacape, fios de cobre que lembram cabelo, e um pente de cobre, que mantém os longos fios de cabelo unidos. A série está ligada ao texto ficcional de Tunga intitulado Xifópagas Capilares Entre Nós, publicado originalmente na Revista da Prática Freudiana em 1985. Leia o texto completo aqui.

Esquerda: Primeiras Núpcias, 1986-2002, vista da exposição Tunga: Conjunções Magnéticas, Instituto Itaú Cultural / Instituto Tomie Ohtake, São Paulo, Brasil, 2022. Foto: Renato Parada
Direita: Sem título, [1986-2008]. Foto: Jaime Acioli

Toro [1980-2009] é uma série composta por obras em diversos meios — esculturas, desenhos e pinturas — que exploram a imagem recorrente do toro, uma forma geométrica semelhante a um anel, que aparece ao longo da prática de Tunga, incluindo obras importantes como Torus Enfumé (1983), Manifesto Oculto (1983), Les Bijoux de Madame de Sade (1983) e ÃO (1981). Tunga via o toro como um símbolo de continuidade que define o espaço não pela medida, mas pela sua estrutura intrínseca. Ele acreditava que essa forma auto-contida e sem limites transmitia a ideia de coesão ininterrupta.

Para Tunga, a escolha do título para as obras que apresentam esse motivo era fluida; algumas eram chamadas de Toro, outras de Les Bijoux de Madame de Sade.

Esquerda: Toro, 1983, vista da exposição As Jóias de Madame de Sade, Galeria Raquel Arnaud, São Paulo, Brasil, 1983. Foto: Romulo Fialdini
Direita acima: Toroceleste Cristalperfumado, [2008-2009]. Foto: Jaime Acioli
Direita abaixo: Sem título, [1980-1983]. Foto: Jaime Acioli

Trança [1980-2006] é uma série que inclui várias versões das obras Trança (1983) e Tereza (1998), ambas explorando a prática do trançado, uma atividade que, na imagética de Tunga, é associada ao feminino, em contraste com seu oposto masculino: o tacape. Para Tunga, a trança encarna a ideia de que três elementos podem formar uma única entidade — como no conceito cristão da Trindade. Suas primeiras obras com tranças foram exibidas na GB Arte no Rio de Janeiro em 1984.

Esquerda: Trança, 1983. Foto: Romulo Fialdini
Direita: Tereza, [1998]. Foto: Jaime Acioli

A Vanguarda Viperina [1985-1990] é uma série ligada a uma performance homônima realizada pela primeira vez no Instituto Vital Brazil, em Niterói, em 1985. Durante o evento, funcionários da instituição especializada na produção de soro antiofídico sedaram três cobras com éter e, em seguida, as trançaram. À medida que a sedação perdia o efeito, as cobras iam se libertando da trança. Os trabalhos em papel dessa série refletem essa ação, com linhas sinuosas e entrelaçadas formando diferentes tipos de looping.

Esquerda: Sem título, [1985-1989]. Foto: Jaime Acioli
Direita: Sem título, [1985-1989]. Foto: Jaime Acioli

Xifópagas Capilares Entre Nós [1984-2012] é uma série ligada à performance homônima de Tunga, realizada em 1984, na qual duas irmãs gêmeas idênticas, unidas pelos cabelos, percorriam o espaço da exposição. A história das gêmeas siamesas que se recusaram a se separar aparece em um texto que Tunga publicou como encarte na revista psicanalítica Revista da Prática Freudiana: Revirão 2 em outubro de 1985. Combinando fragmentos poéticos, mitologia, documentos de arquivo e achados arqueológicos, Tunga cria uma obra de ficção especulativa que traça as origens míticas de gêmeas nórdicas, cujos fios de cabelos foram transformados em artefatos sagrados. Xifópagas Capilares Entre Nós se tornou uma das expressões mais emblemáticas do universo ficcional de Tunga, reaparecendo em diversas séries e obras. Leia o texto completo aqui.

Esquerda: Xifópagas Capilares Entre Nós, [1987/1999]. Foto: Wilton Montenegro
Direita: Xifópagas Capilares Entre Nós, performance na abertura da Galeria Psicoativa, Instituto Inhotim, 2012. Foto: Daniela Paoliello

Década de 1990

Bell’s Fall [1996–1998] é uma série vinculada à instalação homônima de 1998, composta por uma rede vermelha onde se entrelaçam sinos de vidro fundido, esponjas-do-mar tingidas, bolas de bilhar, contas de cristal, garrafas, pipetas e diversos outros objetos. Essa série guarda uma relação estreita com True Rouge [1996–2003], com a qual compartilha elementos como o uso da cor vermelha e objetos suspensos. As obras bidimensionais da série apresentam esses elementos pendendo de redes e consistem principalmente em desenhos e esboços feitos com grafite, pastel vermelho, giz de cera ou caneta hidrográfica.

O título original em inglês significa “queda do sino”.

Esquerda: Bell’s Fall, 1998, vista da instalação, Luhring Augustine, Nova York, EUA, 1998. Foto: Larry Lamay
Direita: Sem título, [1996]. Foto: Jaime Acioli

Cadentes Lácteos [1994–1995] é uma série vinculada à instalação homônima, apresentada na 22ª Bienal de São Paulo, em 1994. A obra é composta por cinco grandes sinos de ferro fundido acompanhados de funis, taças e garrafas, todos cobertos por uma substância gelatinosa e esbranquiçada que escorre lentamente, formando poças no chão. Tunga também se referia à instalação como K – D entes Lácteos ou KDL. Em 1995, o artista realizou os desenhos chamados Bell’s Fall Suite, que integram a série Cadentes Lácteos e marcam a primeira aparição do nome Bell’s Fall — posteriormente usado como título de uma obra tridimensional de 1998 e de uma série de trabalhos relacionados. As obras bidimensionais de Cadentes Lácteos consistem principalmente em desenhos e esboços de sinos, funis, taças e garrafas.

Esquerda: Tunga e Cadentes Lácteos na 22a Bienal de São Paulo, 1994. Foto: Lúcia Helena Zaremba
Centro: Sem título, [1994]. Foto: Jaime Acioli
Direita: Sem título, [1994-1995]. Foto: Jaime Acioli

Debaixo do Meu Chapéu [1995] é uma série vinculada à instauração homônima, apresentada durante Avant-Garde Walk a Venezia, evento realizado por ocasião da 46ª Bienal de Veneza, em 1995. Sete mulheres caminharam pelas ruas da cidade sob um único e imenso chapéu de palha, sobre o qual estavam dispostos sete chapéus de tamanho padrão, cada um contendo um crânio. As obras bidimensionais da série consistem principalmente em desenhos de chapéus e de formações onduladas compostas por anéis concêntricos.

Esquerda: Debaixo do Meu Chapéu, 1995, vista da performance, Veneza, Itália. Foto: Cordelia Fourneau de Mello Mourão
Direita: Sem título, [1995]. Foto: Jaime Acioli

Desenhos em Polvorosa [1994–2004] é uma série de desenhos que retratam corpos emaranhados e fragmentados, cujos membros distorcidos e entrelaçados se fundem, formando uma massa dinâmica e ambígua. A fusão é tão completa que as fronteiras entre um corpo e outro se desfazem, fazendo surgir uma nova forma.

Esquerda: Sem título, 1996. Foto: Romulo Fialdini, cortesia Museu de Arte do Rio de Janeiro (MAM Rio)
Centro: Sem título, [1994-1996]. Foto: Jaime Acioli
Direita: Sem título, [1994-1996]. Foto: Jaime Acioli

Os Heraldos [1998–2001] é uma série que inclui diferentes versões da escultura homônima de 1999. Essas obras, compostas por sinos, caldeirões, taças, garrafas, tripés e funis dispostos sobre uma chapa de ferro, podem ser entendidas como um desdobramento — ou uma “sombra”, nas palavras do artista — de Lúcido Nigredo (1998), instalação que reúne objetos semelhantes, mas feitos de vidro. As obras bidimensionais da série são, em sua maioria, desenhos que retratam esses elementos dispostos sobre uma superfície plana.

O título faz referência a Los Heraldos Negros (1919), livro de poemas do escritor e poeta peruano César Vallejo (1892–1938).

Esquerda: Os Heraldos, 1999, vista da exposição, 5a Bienal de Lyon, França, 2000. Foto: Ivana Monteiro
Direita acima: Sem título, [1999-2001]. Foto: Jaime Acioli
Direita abaixo: Sem título, [1999-2001]. Foto: Jaime Acioli

Inside Out, Upside Down [1997–1998] é uma série vinculada à obra homônima, apresentada na Documenta X, em Kassel, Alemanha, em 1997. Essa instauração reúne duas performances anteriores: Debaixo do Meu Chapéu, realizada em Veneza em 1995, e Experiência de Fina Física Sutil, apresentada em Nova York em 1996. A série acompanha a evolução dessas performances — a primeira, com jovens mulheres movendo-se como uma única entidade sob um grande chapéu de palha repleto de crânios; a segunda, com sete homens cujas malas de couro colidem ao se cruzarem, espalhando próteses pela rua. As obras bidimensionais consistem principalmente em esboços das performances e desenhos, feitos a caneta esferográfica, de uma figura suspensa de cabeça para baixo, com membros fragmentados amarrados por cordas e ligados a uma grande cabeça próxima ao chão. Em algumas obras, a figura é composta inteiramente por crânios e ossos.

O título original em inglês, Inside Out, Upside Down, pode ser traduzido literalmente como “do avesso, de cabeça para baixo”.

Esquerda: Inside Out, Upside Down, 1997, vista da performance, Documenta X, Kassel, Alemanha Foto: Cordelia Fourneau de Mello Mourão
Direita: Sem título, [1998]. Foto: Jaime Acioli

Jardim de Mandrágoras [1990–1994] é uma série vinculada a duas obras com o mesmo título: a primeira, uma instalação composta por uma base, dedais de ferro, um ímã, limalhas de ferro e um termômetro; a segunda, uma performance apresentada por ocasião da ECO-92, a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento, realizada no Rio de Janeiro em 1992. Ambas as obras se inspiram em mitos descritos na obra ficcional de Tunga sobre a mandrágora e sua origem, segundo a qual a planta brotaria do sêmen de homens enforcados. Em Barroco de Lírios (1997), Tunga descreve o cultivo de um jardim misterioso e poderoso centrado na mandrágora — planta conhecida por suas propriedades venenosas e alucinógenas, cujas raízes, muitas vezes semelhantes a figuras humanas, estão tradicionalmente associadas a rituais mágicos. As obras bidimensionais dessa série consistem principalmente em esboços da instalação.

Esquerda: Jardim de Mandrágoras, 1992. Fotógrafo desconhecido
Direita: Sem título, 1993. Foto: Jaime Acioli

Tríade Trindade [1999–2001] é uma série vinculada às instalações Tríade Trindade (1999–2001) e De Ferro Deleite (1999–2000), que incorporam diversos elementos do extenso repertório formal da obra de Tunga, como tripés, sinos, bengalas, tranças, caldeirões, tacapes, taças e maquiagem. Essas obras exploram a relação entre os conceitos de tríade — um grupo de três elementos interrelacionados — e trindade, entendida como o estado de ser um e três ao mesmo tempo, como na Santíssima Trindade cristã e em outras tradições místicas.

Esquerda: Tríade Trindade, 2001, vista da exposição, Jeu de Paume, Paris, França, 2001. Fotógrafo desconhecido
Direita acima: Sem título, [1999-2001]. Foto: Jaime Acioli
Direita abaixo: Sem título, [1999-2001]. Foto: Jaime Acioli

True Rouge [1996–2003] é uma série vinculada à obra True Rouge (1997), que está em exibição permanente no Instituto Inhotim desde 2002. Essa instalação apresenta uma complexa composição de múltiplas redes vermelhas que suspendem uma infinidade de objetos — escovas, bolas de bilhar, contas de vidro, esponjas-do-mar, garrafas, funis, bolas de cristal e outros — todos em tons de vermelho. As obras bidimensionais dessa série incluem desenhos preparatórios e fotografias que capturam detalhes da instalação e pessoas interagindo com ela, como Infra-Rouge (1998), True Rouge Shadow with Profile (2000) e T.R. Axiomatic (2000/2003).

O título True Rouge vem de um poema algébrico, com o mesmo nome, escrito pelo poeta inglês Simon Lane em 1997. A palavra combina o inglês true, que significa “verdadeiro”, com o francês rouge, que significa “vermelho”.

Esquerda: True Rouge, 1997, vista da exposição, Luhring Augustine, Nova York, EUA, 1998. Foto: Larry Lamay
Direita acima: Sem título, [1996-1997]. Foto: Jaime Acioli
Direita abaixo: Sem título, [1996-1997]. Foto: Jaime Acioli

Década de 2000

À Lumière des Deux Mondes [2003–2010] é uma série ligada a uma instalação monumental homônima, apresentada pela primeira vez em 2005 no Louvre, em Paris. Exibida sob a icônica pirâmide de vidro do museu, a obra reúne réplicas de cabeças esculpidas de diferentes culturas e períodos históricos do acervo do Louvre, além de crânios fundidos em bronze, todos conectados por uma grande rede metálica que sustenta um esqueleto sem cabeça. As obras em papel da série incluem estudos da instalação, assim como desenhos minuciosos de elementos relacionados, como redes, balanços e crânios.

O título da série, em francês, significa “À Luz de Dois Mundos”.

Esquerda: À la Lumière des Deux Mondes, 2005, vista da instalação, Musée du Louvre, Paris, França. 2005-2006. Foto: Angèle Dequier
Centro: Detalhe da instalação. Foto: Emmanuel Sarnin
Direita: Sem título, [2004-2005]. Foto: Jaime Acioli

Afinidades Eletivas [2002–2008] é uma série ligada a uma instauração homônima, realizada e filmada pela primeira vez em 2004 no Pensatorium, ateliê do artista no Rio de Janeiro. A obra se relaciona a um conjunto de instalações compostas por estruturas suspensas por uma rede de cabos, com extremidades em forma de bengala. Desses elementos pendem arranjos cuidadosamente equilibrados de dentes de alumínio, tecidos variados e mondrongos — esculturas amorfas que se tornaram uma marca do vocabulário tardio de Tunga — conectados entre si por correntes. Enquanto alguns mondrongos apresentam superfícies planas, a maioria, nesta série, tem uma superfície irregular cravejada de dentes de alumínio. O título faz referência ao romance Afinidades Eletivas (1809), de Goethe, que Tunga estava lendo na época. As obras em papel da série incluem estudos das estruturas suspensas, além de aquarelas que exploram o motivo dos mondrongos com dentes salientes.

Esquerda: Afinidades Eletivas, 1974, vista da exposição As Afinidades Eletivas e Laminadas Almas, Galeria Millan, São Paulo, Brasil, 2004. Foto: Ivana Monteiro
Direita: Sem título, [2002-2008]. Foto: Jaime Acioli

A Bela e a Fera [2000–2003] é uma série ligada a diferentes versões de uma instalação homônima, centrada em um par de mondrongos — esculturas amorfas que se tornaram uma marca do vocabulário tardio de Tunga. Um deles, com concavidades, associa-se ao feminino — a “fêmea-bela”; o outro, com protuberâncias, ao masculino — o “macho-fera”. Apoiados em tripés metálicos com pés em forma de bengala, os dois mondrongos são acompanhados por um conjunto de funis, garrafas, taças, caldeirões e sinos, todos conectados por correntes metálicas. As obras em papel da série incluem várias pinturas dos mondrongos, realizadas em guache, aquarela e nanquim.

Esquerda: A Bela e a Fera, 2001-2004, vista da exposição, Luhring Augustine, Nova York, EUA, 2002. Foto: Larry Lamay
Centro: Sem título, 2000-2001. Foto: Jaime Acioli
Direita: Sem título, 2000-2001. Foto: Jaime Acioli

A Cada Doze Dias Uma Carta [2005–2006] é uma série de desenhos, monotipias e litografias criados por Tunga em resposta a um conjunto enigmático de cartas anônimas, recebidas ao longo de vários meses entre 2005 e 2006. A correspondência tinha teor sexualmente explícito e demonstrava grande conhecimento da obra do artista. A partir disso, Tunga produziu uma sequência de obras eróticas em papel — uma a cada doze dias, durante 120 dias — retratando densos aglomerados de corpos entrelaçados.

Premier Jour, [2005]. Foto: Jaime Acioli

Cooking Crystals [2006–2010] é uma série ligada às instalações Cooking Crystals (2008) e Cooking Crystals Expanded (2008), assim como ao filme Cooking (2010). Ambas as instalações são compostas por grandes estruturas de ferro com extremidades circulares, sustentando uma combinação de cristais, bandejas de alumínio, tipitis e garrafas — algumas contendo um líquido semelhante à urina, outras vazias. Cooking é um filme erótico escrito e roteirizado por Tunga, produzido por Lula Buarque de Hollanda, e ambientado no universo das esculturas do artista. As obras em papel da série incluem desenhos a lápis de uma figura nua e sentada, com uma garrafa no colo, como se brotasse de sua região genital.

O título da série, em inglês, significa “cozinhando cristais”.

Esquerda: Cooking Crystals, 2008. Foto: Otavio Schipper
Direita: Sem título, [2008]. Foto: Jaime Acioli

Laminadas Almas [2004–2007] é uma série ligada a uma instalação e instauração homônimas, bem como aos elementos a elas associados. Tunga concebeu a obra como uma espécie de laboratório conceitual: dois portais de madeira e vidro, semelhantes a lâminas de observação ampliadas, são iluminados por lâmpadas incandescentes e cercados por equipamentos de laboratório, como termômetros e microscópios. Na instauração, dois performers sentavam-se em mesas de laboratório separadas, cada uma posicionada sobre um tanque de água cheio de girinos. Para a estreia na Galeria Millan, em São Paulo, em 2004, Tunga convidou os irmãos gêmeos — os jovens artistas Thiago e Matheus Rocha Pitta — para interpretar os cientistas, reforçando a noção de espelhamento. As obras em papel da série incluem principalmente desenhos preparatórios a lápis para a instalação, bem como pequenos estudos em aquarela dos interiores e móveis utilizados.

Esquerda acima: Laminadas Almas, 2004-2007, vista da performance e instalação, Espaço Tom Jobim, Jardim Botânico do Rio de Janeiro, Brasil, 2006. Foto: Liu Lage
Direita acima: Sem título, 2007, vista da exposição Tunga: Conjunções Magnéticas, Instituto Itaú Cultural / Instituto Tomie Ohtake, São Paulo, Brasil, 2001-2022. Foto: Renato Parada
Direita abaixo: Sem título, 2006. Foto: Jaime Acioli
Esquerda abaixo: Sem título, 2006-2007. Foto: Jaime Acioli

Phanógrafo Policromático de Deposição [2004–2009] é uma série ligada a diferentes versões de uma escultura homônima — uma caixa de madeira amarelo-claro com painéis que se abrem lateralmente. Cada caixa contém uma garrafa de vidro única, cuidadosamente escolhida, preenchida com um líquido de um tom amarelo intenso, acompanhada por combinações variadas de materiais — como âmbar, cristal e pérolas — e objetos, incluindo funis, tipitis, martelos e formas arredondadas que evocam fezes humanas. Phanógrafo é um neologismo criado por Tunga, derivado do grego phanos, que transmite a ideia de clareza — algo revelado à luz de uma tocha. Segundo o artista, a obra surgiu a partir de um episódio inesperado em seu ateliê: ele urinou em uma garrafa de bacará e percebeu que, contra a luz, a urina emitia um agradável brilho amarelo. Posteriormente, os Phanógrafos deram origem aos desenhos da série Quase Auroras [2005–2011] — ver abaixo.

Esquerda: Phanógrafo Policromático de Deposição, 2008. Foto: Gabi Carrera
Direita: Sem título, 2008. Foto: Jaime Acioli

Psicopompos [2007–2008] é uma série ligada à Psicopompos (2008), uma obra comissionada para o Château La Coste, um vinhedo e centro de arte em Le Puy-Sainte-Réparade, França. A instalação ao ar livre é composta por três estruturas de grande dimensão, em forma de portal, cada uma sustentando uma balança com um de três contrapesos distintos: um cristal maciço, uma rede metálica com cristais menores e um grande prisma de vidro. O título deriva do grego psychopompos, que combina psyché (alma) e pompós (guia). As obras em papel da série consistem principalmente em desenhos arquitetônicos preparatórios, realizados a lápis, caneta hidrográfica e aquarela.

Esquerda: Psicopompos, 2008, vista da instalação, Château La Coste, Le Puy-Sainte-Réparade, França. Foto: Remi Santolaria
Direita: Sem título, [2007-2008]. Foto: Jaime Acioli

Quase Auroras [2005–2011] é uma série de aquarelas que se desenvolveu a partir da série Phanógrafo Policromático de Deposição [2004–2009] — ver acima. Tunga descreveu essas obras como surgindo quase involuntariamente, como uma forma de escrita automática. O catálogo da exposição individual Quase Auroras, realizada na Galeria Millan em 2009, apresenta uma seleção de reproduções coloridas e um texto do artista, no qual ele recorda ter ficado fascinado pela luz âmbar emitida por uma garrafa de bacará contendo sua urina — um objeto que Tunga adornava com diversos materiais e mantinha sobre a mesa do ateliê. A série, composta por um amplo conjunto de aquarelas, apresenta desenhos delicados e quase imperceptíveis, além de motivos recorrentes como coqueiros, poças amarelas, névoa e corpos humanos.

Esquerda: Sem título, [2005-2009]. Foto: Jaime Acioli
Direita: Sem título, [2005-2011]. Foto: Jaime Acioli

Anjos Maquiados [2011–2013] é uma série de desenhos perolados sobre papel algodão. As imagens apresentam uma textura sutil, quase líquida, evocando zonas erógenas por meio de delicados tons de rosa e vermelho — cores comumente associadas à maquiagem, que também é incorporada a algumas das obras, além de aquarela, grafite, pastel e esmalte de unhas.

Esquerda: Sem título, da série Anjos Maquiados, [2011-2012]. Foto: Jaime Acioli
Direita: Sem título, da série Anjos Maquiados, [2011-2012]. Foto: Jaime Acioli

Ethers [2010–2011] é uma série de trabalhos sobre papel associada ao livro Ethers (2011), no qual as gravuras de Tunga são apresentadas ao lado de poemas de Esther Faingold. O título ecoa tanto o nome Esther quanto a noção de éter como espaço invisível de transmissão. Realizados com lápis, pastel seco e giz de cera em tons rosados e avermelhados, os desenhos formam densas composições de corpos nus emaranhados, cujos contornos difusos sugerem movimento coletivo. Cristais aparecem próximos ou inseridos em orifícios corporais e algumas figuras seguram garrafas que recolhem fluidos que escorrem desses orifícios.

Esquerda: Sem título, da série Ethers, [2011]. Foto: Jaime Acioli
Direita: Sem título, da série Ethers, [2010]. Foto: Jaime Acioli

“From ‘La Voie Humide’” [2011–2016] é uma série de instalações, fotografias e desenhos que explora temas de alquimia e transformação. La Voie Humide, expressão que pode ser traduzida do francês como “a via úmida”, refere-se a um processo alquímico esotérico que privilegia uma transformação gradual e orgânica, em contraste com a “via seca”, um caminho mais direto, associado à austeridade intelectual e à disciplina. As instalações desta série consistem em estruturas metálicas semelhantes a tripés, das quais são suspensos recipientes de terracota não esmaltada ou de gesso. Frequentemente moldados na forma de dedos e chamados por Tunga de morrotes, esses recipientes são preenchidos com materiais como cristais, pérolas e esponjas. Os desenhos da série, muitos deles realizados sobre delicado papel artesanal, consistem em linhas que se fecham sobre si mesmas, evocando rostos e outras partes do corpo. A série inclui ainda duas obras fotográficas, Pitágoras e Adão e Eva, autorretratos de 2014, nos quais Tunga aparece com uma concha e com duas tartarugas, respectivamente, diante do rosto. Assim como os desenhos, essas fotografias exploram a quase-simetria entre partes do corpo humano e formas orgânicas presentes na natureza.

Aproximadamente 90 obras desta série apresentam um carimbo em relevo seco com motivos de dedos e pérolas. Tunga produziu dois carimbos, que foram designados Carimbo A e Carimbo B para fins de identificação neste catálogo raisonné. O Carimbo A é o mais frequente. Ambos estão ilustrados abaixo.

Esquerda: Demiurgo, 2014. Foto: Gabi Carrera
Centro: Sem título, da série ‘From ‘La Voie Humide'”, c. 2014. Foto: Jaime Acioli
Direita: Pitágoras, da série ‘From ‘La Voie Humide’“, [2014]. Foto: Jaime Acioli

Esquerda: Carimbo A
Direita: Carimbo B

Morfológicas [2011–2016] é uma série associada a um conjunto de esculturas homônimas. Essas obras curvilíneas e volumosas exploram correspondências entre partes do corpo humano: um seio torna-se pênis, um dedo se transforma em glande e uma vulva é representada como lábio. As esculturas foram inicialmente produzidas em pequeno formato com plasticina, gesso e cerâmica, e posteriormente, em grande formato, fundidas em bronze com diferentes pátinas. Os trabalhos sobre papel consistem principalmente em estudos a lápis e delicados desenhos em aquarela, grafite e giz de cera, representando formas corporais fluidas e arredondadas, muitas vezes amalgamadas ou combinadas entre si. Esta foi a última série em que Tunga trabalhou antes de sua morte em 2016.

Esquerda: Sem título, 2014. Foto: Gabi Carrera
Direita: Lutus sapiens, da série Morfológicas, [2011-2016]. Foto: Jaime Acioli