Aspas do artista
“Eventualmente a gente não presta atenção, passa por uma obra e nada, não nos diz nada, e a gente até não percebe que está ali, mas se eventualmente daqui a três anos a gente sonhar com essa obra? Isso é uma grande responsabilidade, você fazer parte do imaginário do outro.”
Trecho do vídeo “Homenagem ao artista pernambucano Tunga”, Estúdio Case, 2016.
“Quando a gente faz uma obra a gente acha que sabe dela, conhece ela, até o momento em que ela fica pronta. No momento em que ela fica pronta, os mistérios dela começam a colocar questões e ela passa a ser algo de oracular, assim como uma floresta onde você há de caminhar e se colocar questões que só nessa presença a floresta te doa.”
Trecho do vídeo “Homenagem ao artista pernambucano Tunga”, Estúdio Case, 2016.
“Em público eu já destruí obras. Algumas vezes… Uma série de obras que eu fiz em vidro, eu fiz uma exposição uma vez onde eu montei a exposição toda de vidros preciosíssimos e no vernissage eu fui com um martelo no bolso. E toda vez que alguém vinha falar eu quebrava uma peça. Mas, esse quebrar, esse destruir, não era destruir, eu estava construindo mais um gesto que desmaterializava, ou desconstituía aquela formalização e trazia uma outra formalização, intencional, mas surpreendente pra mim. Porque eu acho que o artista deve, necessariamente, não tem como evitar, você não perpetuar todas as obras que você faz.”
Trecho do vídeo “Masterclass com Tunga”, EAVerão, 2015.
“A performance implica, digamos, em português bem traduzido, seria algo como desempenho. Mas o que a gente faz não é um desempenho, tem uma palavra, que aliás, dialogaria legal com a ideia de instalação que é muito próxima da performance de algum jeito, que seria a instauração. É fazer acontecer algo que você testemunha, que não estava ali, com uma luz nova.”
Trecho do vídeo “Performance – A Arte Efêmera”, TV Brasil, 2015.
“O que acontece em geral na performance, é que tudo faz sentido. O lugar da arte hoje em dia, é algum museu, galeria, centro cultural. O lugar da arte que a gente tá descrevendo, que a gente tá conversando, não é propriamente, somente nesses lugares, é em qualquer lugar. E me ocorreu que seria possível fazer uma escada, um escape do lugar da arte. E fiz então uma performance, primeira vez que apresentei isso foi no CCBB em São Paulo. Tinha o pressuposto que eles estavam pretendendo revitalizar uma zona urbana, e o fato é que quando eu fui visitar o espaço, eu nunca vi lugar mais vivo na minha vida. Porque eram vendedores ambulantes na rua, gente fazendo pregão, a cena real da cidade viva estava ali. A minha tava mais pra chamar um grupo de pessoas, grande, pesado, pra fazer essa trança e escapar desse lugar. Isso é o que? É uma Tereza, todo mundo sabe, o apelido de uma trança na cadeia é Tereza.”
Trecho do vídeo “Performance – A Arte Efêmera”, TV Brasil, 2015.
“O corpo é uma parte da gente. O corpo carrega a gente. E, tá tudo carregado. Então se trata de juntar essas coisas que estão carregadas no seu corpo, e no corpo do outro. No corpo de uma pedra, no corpo da rua, no corpo da paisagem… Integrar isso tudo como um corpo. Esse corpo extenso que eu to chamando, é uma cena. É uma cena onde você está presente. Cena essa que pode ser filmada por qualquer um que fizer parte dessa cena. E que vai ser filmada. Filmada não no sentido de ter uma câmera com uma película, ele vai filmar na percepção dele, na presença dele. Pode ser até que ele não preste atenção, mas quem sabe, uma percepção lateral dá a ele a nítida impressão de ter vivido aquilo, e que um dia, ele sonhe. E no sonho dele, aparece aquela cena, ou elementos daquela cena, então, isso é uma linguagem. Essa linguagem se infiltrou, invadiu, na mente dessa outra pessoa, na mente de quem ali testemunhou.”
Trecho do vídeo “Performance – A Arte Efêmera”, TV Brasil, 2015.
“A trança é muito curiosa, porque a trança… Olha vamos falar de 12.000 anos. Há 12.000 anos atrás, o homem vinha sendo muito preguiçoso. Ele tinha passado 400.000 anos sem fazer nada. Subitamente, sem grandes razões, ele começou a fazer serrinhas nas flechas, ele notou que se ele plantasse a semente ela dava, ele começou a ter pequenas percepções assim e uma delas foi que juntando três coisas diferentes fazia uma só. E aí começou a indústria da tecelagem, que é contemporânea à indústria da cerâmica. A única coisa que se sabe sobre a divisão social do trabalho nesse tempo, nesse período, 14.000 anos atrás, é que haviam coisas mais características do feminino e coisas mais características do masculino. Mas por acaso a tecelagem era uma daquelas coisas tipicamente femininas. E o mais curioso disso é que essa operação não era apenas para fazer um tecido, ou uma trança no cabelo, mas o que é central nela é que ela constituí uma coisa que até hoje se apresenta no dia a dia da gente, que é a ideia da trindade e da unidade, que na religião cristã vem a se constituir como se fosse um mistério, como de três você faz um? O que é isso que é três e é um ao mesmo tempo? A gente olhar uma trança desse jeito é a gente abstrair, é a gente olhar não só o fenômeno da trança, mas a gente ver através da formação desse fenômeno. Talvez esse seja um bom caminho, na didática. Da gente aprender a fazer, aprender a olhar, e depois explicar o que fez e comparar essa explicação com o olhar que vocês tinham tido sobre aquilo.”
Trecho do vídeo “Masterclass com Tunga”, EAVerão, 2015.
“Óbvio que se tratava de estender esse campo da ideia da representação e do real a um fato biológico, a uma vida mesmo, ou seja, alguém representa alguém porque é idêntico a alguém, mas você não sabe quem é. Elas são apenas as Xifópagas, elas não tem nome. Manter isso, manter essa tensão, num primeiro trabalho, numa primeira ideia, era construir uma ficção em torno disso e tornar esse gesto da separação um gesto traumático ou um gesto impossível ou um gesto difícil. E surge então essa ficção das Xifópagas Capilares, que dentro dessa ficção mesmo terminam sendo degoladas e os couros cabeludos mantém-se combinados, e é sobre eles que se escreve a narrativa dessas siamesas capilares. Ou seja, aquele lugar que deveria interromper uma representação do real nunca é violado dentro dessa ficção.”
Trecho do vídeo “Masterclass com Tunga”, EAVerão, 2015.
“Eram duas irmãs gêmeas que tinham nascido ligadas, portanto ‘Xifópagas’, mas peculiarmente nasceram ligadas pelo cabelo. E, na primeira infância a mãe se recusou a cortar e depois na consciência elas passaram a adotar aquilo como um modo de vida, de estarem as duas juntas. Quando eu pensei nisso, o que mais me interessava era a questão da representação. O que mais me intrigava era a questão da identidade. Da identidade caminhar junto com o real, o real e a representação serem um corpo só. Um corpo muito tênue, com uma ligação muito tênue e muito ficcional. E uma ligação que bastava um corte para criar uma independência. Era preciso, portanto, dentro dessa ficção que se apresentou para mim, criar uma história e um contexto onde esse corte não acontecesse, onde essa tensão continuasse latente e presente o tempo inteiro, entre você olhar as duas gêmeas e não saber qual é a representação e qual é real.”
Trecho do vídeo “Masterclass com Tunga”, EAVerão, 2015.
“Eu há muito tempo atrás dizia assim, olha, fazer escultura é que nem lavar as mãos, você vai tirando todo dia com água, dissolvendo um pouco do sabão, e o sabão virou uma escultura. É exatamente a mesma coisa. Qual é a diferença? A diferença é a intencionalidade. A diferença é a consciência de que esse fazer vai te trazer, vai te aportar, vai te revelar alguma coisa outra.”
Fonte: Vídeo “Masterclass com Tunga”, EAVerão, 2015.